Devoção ao Santíssimo Sacramento
A nossa fé na presença real
Quero recordar a você que a fé é o único olhar totalmente
lúcido que o homem pode ter, porque – no meio das sombras da vida –
faz-nos ver as coisas como Deus as vê. Poderíamos dizer que quando a
nossa alma se abre à graça da fé, Cristo, o autêntico Sol nascente (Lc 1,78), inunda-a com a luminosidade do Espírito Santo, e tudo na vida fica também iluminado.
Por que lhe digo isso agora? Porque vamos meditar sobre a
devoção ao Santíssimo Sacramento, e acho muito importante começarmos
remoçando a nossa fé na presença real de Cristo na Eucaristia.
São Josemaria, sempre que estava – em pensamento ou de
fato – na presença da Eucaristia, fazia o que ele chamava «um ato de fé
explícita: «Adoro-te com devoção, Deus escondido… Creio que és Jesus, o
Filho de Maria sempre Virgem… Creio que estás presente com o teu Corpo,
com o teu Sangue, com a tua alma e com a tua divindade… Meu Jesus, eu te
adoro!».
É bom lembrarmos isso agora que vamos refletir sobre o
amor e a adoração ao Santíssimo Sacramento, não na Missa e na hora de
comungar – pois isso já foi comentado em conversas anteriores -, mas
quando encontramos Jesus realmente presente nas Hóstias consagradas que
se reservam nos Sacrários das igrejas e capelas.
O tesouro escondido
Acabo de lhe dizer «quando encontramos Jesus». Mas, será
que o encontramos? Cristo, nos Sacrários, é verdadeiramente aquele tesouro escondido de que fala o Evangelho (Mt 13,44): um tesouro escondido num campo,
junto do qual passam muitos sem perceber nada, como se só houvesse lá
terra, capim e pedras. Só o cristão que ama a Eucaristia é capaz de encontrá-lo…, cheio de alegria
lá onde há um Sacrário. Então, como na parábola, o feliz descobridor
compreende que aquele tesouro vale mais que todos os tesouros da terra
e, cheio de alegria, vai, vende tudo o que tem, e compra aquele campo (Mt, idem).
Você entende o que isso nos sugere? Você e eu vamos pela
rua e passamos diante de uma igreja, um hospital ou um colégio
católicos. Lá há um Sacrário, lá dentro está o Santíssimo Sacramento –
Cristo vivo! -, e nós podemos passar sem ligar a mínima, como aqueles
viajantes indiferentes da parábola do samaritano. Que pena! Você vai
dizer-me que anda pela rua distraído, sem má vontade. E eu lhe respondo:
«Proponha-se perceber», e corresponda ao amor com que Cristo quis ficar
no Sacrário por você, por mim.
Vou-lhe sugerir algumas atitudes práticas:
a) Comece refazendo mentalmente os seus itinerários mais
habituais. Não precisa para isso nem de mapa nem de GPS. É fácil
recordar as ruas e lugares onde você já percebeu que há alguma igreja,
capela, etc.
b) Proponha-se então não passar por esses lugares sem
dizer algo a nosso Senhor. Um ato de amor («Jesus, que estás aí, eu te
amo»), uma saudação simples e cordial («Jesus, bom dia, me acompanhe
hoje no trabalho!»), ou – e essa pode ser uma excelente solução – reze
uma «Comunhão espiritual», que consiste em dizer a Jesus que desejaria
recebê-lo com amor. «Invente» a maneira de Lhe dizer isso. Talvez o
ajude aprender de cor a fórmula de uma bela Comunhão espiritual, que já
foi rezada por almas muito santas e que hoje muitos utilizam. Diz assim:
«Eu quisera, Senhor, receber-vos com aquela pureza, humildade e devoção
com que vos recebeu a vossa Santíssima Mãe, com o espírito e o fervor
dos santos».
c) Aproveito o anterior para acrescentar que a Comunhão
espiritual, rezada – bem rezada – em qualquer momento, lugar ou
circunstância, tem um grande valor. Veja o que diz João Paulo II: «É
conveniente cultivar continuamente na alma o desejo do sacramento da Eucaristia.
Daqui nasceu a prática da “comunhão espiritual” em uso na Igreja há
séculos, recomendada por santos mestres de vida espiritual. Escrevia
Santa Teresa de Jesus: “Quando não comungais e não participais na Missa,
comungai espiritualmente, porque é muito vantajoso. [...] Deste modo,
imprime-se em vós muito do amor de nosso Senhor”» (Encíclica Ecclesia de Eucharistia,
n. 34). E Santo Tomás de Aquino afirma que uma comunhão espiritual
rezada com fervor, pode alcançar-nos muitas das graças que receberíamos
se comungássemos sacramentalmente.
A visita ao Santíssimo Sacramento
São Josemaria dizia: «Quando te aproximares do Sacrário, pensa que Ele! … faz vinte séculos que te espera» (Caminho, n. 537).
Sim, no Sacrário Jesus «te» espera, «me espera». Está
oferecendo um encontro pessoal, e aguardando que nós aceitemos seu
convite. Entende a importância de – sempre que possível – fazer todos os
dias uma visita ao Santíssimo Sacramento?
É verdade que Deus está em toda a parte. Mas Jesus vivo e
realíssimo, em corpo, sangue, alma e divindade está só no Santíssimo
Sacramento. Sua presença deveria atrair-nos como um ímã.
Como é bom entrar numa igreja, numa capela, numa hora
calma, e ajoelhar-nos diante do Sacrário, e olhar para ele, certos de
que nosso olhar está se encontrando com o olhar de Jesus, e o nosso
coração está sendo atingido pelo calor de seu Coração!
Veja o que diz sobre isso João Paulo II: «É bom
demorar-se com Ele e, inclinado sobre o seu peito como o discípulo
predilecto (cf. Jo 13, 25), deixar-se tocar pelo amor infinito
do seu coração. Se actualmente o cristianismo se deve caracterizar
sobretudo pela “arte da oração”, como não sentir de novo a necessidade
de permanecer longamente, em diálogo espiritual, adoração silenciosa,
atitude de amor, diante de Cristo presente no Santíssimo Sacramento?
Quantas vezes, meus queridos irmãos e irmãs, fiz esta experiência,
recebendo dela força, consolação, apoio!»
E, citando Santo Afonso Maria de Ligório, acrescenta que
«a devoção de adorar Jesus sacramentado é, depois dos sacramentos, a
primeira de todas as devoções, a mais agradável a Deus e a mais útil
para nós» (Ecclesia de Eucharistia, n. 25).
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