terça-feira, 5 de julho de 2016

Devoção ao Santíssimo Sacramento

A nossa fé na presença real

            Quero recordar a você que a fé é o único olhar totalmente lúcido que o homem pode ter, porque – no meio das sombras da vida – faz-nos ver as coisas como Deus as vê. Poderíamos dizer que quando a nossa alma se abre à graça da fé, Cristo, o autêntico Sol nascente (Lc 1,78), inunda-a com a luminosidade do Espírito Santo, e tudo na vida fica também iluminado.
            Por que lhe digo isso agora? Porque vamos meditar sobre a devoção ao Santíssimo Sacramento, e acho muito importante começarmos remoçando a nossa fé na presença real de Cristo na Eucaristia.
            São Josemaria, sempre que estava – em pensamento ou de fato – na presença da Eucaristia, fazia o que ele chamava «um ato de fé explícita: «Adoro-te com devoção, Deus escondido… Creio que és Jesus, o Filho de Maria sempre Virgem… Creio que estás presente com o teu Corpo, com o teu Sangue, com a tua alma e com a tua divindade… Meu Jesus, eu te adoro!».
            É bom lembrarmos isso agora que vamos refletir sobre o amor e a adoração ao Santíssimo Sacramento, não na  Missa e na hora de comungar – pois isso já foi comentado em conversas anteriores -, mas quando encontramos Jesus realmente presente nas Hóstias consagradas que se reservam nos Sacrários das igrejas e capelas.

O tesouro escondido

            Acabo de lhe dizer «quando encontramos Jesus». Mas, será que o encontramos? Cristo, nos Sacrários, é verdadeiramente aquele tesouro escondido  de que fala o Evangelho (Mt 13,44): um tesouro escondido num campo, junto do qual passam muitos sem perceber nada, como se só houvesse lá terra, capim e pedras. Só o cristão que ama a Eucaristia é capaz de encontrá-lo…, cheio de alegria lá onde há um Sacrário. Então, como na parábola, o feliz descobridor compreende que aquele tesouro vale mais que todos os tesouros da terra e, cheio de alegria, vai, vende tudo o que tem, e compra aquele campo (Mt, idem).
            Você entende o que isso nos sugere? Você e eu vamos pela rua e passamos diante de uma igreja, um hospital ou um colégio católicos. Lá há um Sacrário, lá dentro está o Santíssimo Sacramento – Cristo vivo! -, e nós podemos passar sem ligar a mínima, como aqueles viajantes indiferentes da parábola do samaritano. Que pena! Você vai dizer-me que anda pela rua distraído, sem má vontade. E eu lhe respondo: «Proponha-se perceber», e corresponda ao amor com que Cristo quis ficar no Sacrário por você, por mim.
            Vou-lhe sugerir algumas atitudes práticas:
            a) Comece refazendo mentalmente os seus itinerários mais habituais. Não precisa para isso nem de mapa nem de GPS. É fácil recordar as ruas e lugares onde você já percebeu que há alguma igreja, capela, etc.
            b) Proponha-se então não passar por esses lugares sem dizer algo a nosso Senhor. Um ato de amor («Jesus, que estás aí, eu te amo»), uma saudação simples e cordial («Jesus, bom dia, me acompanhe hoje no trabalho!»), ou – e essa pode ser uma excelente solução – reze uma «Comunhão espiritual», que consiste em dizer a Jesus que desejaria recebê-lo com amor. «Invente» a maneira de Lhe dizer isso. Talvez o ajude aprender de cor a fórmula de uma bela Comunhão espiritual, que já foi rezada por almas muito santas e que hoje muitos utilizam. Diz assim: «Eu quisera, Senhor, receber-vos com aquela pureza, humildade e devoção com que vos recebeu a vossa Santíssima Mãe, com o espírito e o fervor dos santos».
            c) Aproveito o anterior para acrescentar que a Comunhão espiritual, rezada – bem rezada – em qualquer momento, lugar ou circunstância, tem um grande valor. Veja o que diz João Paulo II: «É conveniente cultivar continuamente na alma o desejo do sacramento da Eucaristia. Daqui nasceu a prática da “comunhão espiritual” em uso na Igreja há séculos, recomendada por santos mestres de vida espiritual. Escrevia Santa Teresa de Jesus: “Quando não comungais e não participais na Missa, comungai espiritualmente, porque é muito vantajoso. [...] Deste modo, imprime-se em vós muito do amor de nosso Senhor”» (Encíclica Ecclesia de Eucharistia, n. 34). E Santo Tomás de Aquino afirma que uma comunhão espiritual rezada com fervor, pode alcançar-nos muitas das graças que receberíamos se comungássemos sacramentalmente.
 
A visita ao Santíssimo Sacramento

            São Josemaria dizia: «Quando te aproximares do Sacrário, pensa que Ele! … faz vinte séculos que te espera» (Caminho, n. 537).
            Sim, no Sacrário Jesus «te» espera, «me espera». Está oferecendo um encontro pessoal, e aguardando que nós aceitemos seu convite. Entende a importância de – sempre que possível – fazer todos os dias uma visita ao Santíssimo Sacramento?
            É verdade que Deus está em toda a parte. Mas Jesus vivo e realíssimo, em corpo, sangue, alma e divindade está só no Santíssimo Sacramento. Sua presença deveria atrair-nos como um ímã.
            Como é bom entrar numa igreja, numa capela, numa hora calma, e ajoelhar-nos diante do Sacrário, e olhar para ele, certos de que nosso olhar está se encontrando com o olhar de Jesus, e o nosso coração está sendo atingido pelo calor de seu Coração!
            Veja o que diz sobre isso João Paulo II: «É bom demorar-se com Ele e, inclinado sobre o seu peito como o discípulo predilecto (cf. Jo 13, 25), deixar-se tocar pelo amor infinito do seu coração. Se actualmente o cristianismo se deve caracterizar sobretudo pela “arte da oração”,  como não sentir de novo a necessidade de permanecer longamente, em diálogo espiritual, adoração silenciosa, atitude de amor, diante de Cristo presente no Santíssimo Sacramento? Quantas vezes, meus queridos irmãos e irmãs, fiz esta experiência, recebendo dela força, consolação, apoio!»
            E, citando Santo Afonso Maria de Ligório, acrescenta que «a devoção de adorar Jesus sacramentado é, depois dos sacramentos, a primeira de todas as devoções, a mais agradável a Deus e a mais útil para nós» (Ecclesia de Eucharistia, n. 25).

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